O chamado do deserto
Há lugares que visitamos e há lugares que nos transformam. O Saara marroquino pertence à segunda categoria. Ele é muito mais do que uma paisagem de areia e céu; é uma experiência sensorial que ecoa no profundo da alma. É um convite ao silêncio, à introspecção e a um ritmo onde o tempo é medido pelo sol e pelas estrelas.
Nesta jornada, Ouarzazate se revela como a “Porta do Deserto”. É aqui, neste limiar entre a civilização e a imensidão ocre, que a verdadeira aventura começa. Para a Fauna, viajar para o Saara não é apenas cruzar dunas, mas realizar uma imersão profunda na cultura ancestral, na paisagem que fala e no silêncio que ensina.

Parte 1: Ouarzazate, a Hollywood de Marrocos e Guardiã dos Kasbahs
Antes de a areia se tornar o único horizonte, Ouarzazate cativa com sua mistura única de história, cinema e arquitetura monumental. É uma cidade-cenário, construída com a própria terra que a rodeia.
Ouarzazate e o Cinema
Seu apelido, “Hollywood Africana”, não é um exagero. A luz dourada e as paisagens bíblicas da região atraem cineastas há décadas. Nos Atlas Film Studios, é possível caminhar por cenários de filmes icônicos como “Gladiador” e “A Múmia”, sentindo-se parte da história do cinema.
Para uma imersão ainda maior, o Museu do Cinema, localizado em um antigo estúdio, oferece uma viagem fascinante pelos bastidores, com figurinos, equipamentos e a magia das grandes produções.
Tesouros Arquitetônicos: Kasbahs e Ksars

A alma da região reside em suas fortalezas de adobe. Um Kasbah é mais do que uma construção; é um símbolo de poder e um refúgio para as famílias, erguido com barro e palha, projetado para resistir ao tempo e ao clima.
A joia da coroa é o Ksar Aït Ben Haddou, uma vila fortificada inteira que é Patrimônio Mundial da UNESCO. Suas torres e ruelas de terra vermelha são talvez o cenário mais famoso de Marrocos, um lugar para se perder e viajar no tempo. Dentro da própria Ouarzazate, o imponente Kasbah Taourirt se destaca.
Explorar esta antiga residência do Pacha de Marrakech é mergulhar em um labirinto de salas, pátios e torres com vistas espetaculares. A partir daqui, inicia-se a lendária Rota dos Mil Kasbahs, uma estrada que serpenteia por vales salpicados de fortalezas antigas, cada uma contando uma história de caravanas e dinastias.
Parte 2: A Jornada ao Grande Deserto – Qual Saara é o Seu?
Adentrar o Saara é uma decisão pessoal, e o Marrocos oferece duas experiências distintas, quase como dois desertos em um. A grande dúvida que se impõe é: Erg Chebbi ou Erg Chigaga?
A Grande Dúvida: Erg Chebbi ou Erg Chigaga?
As Dunas de Erg Chebbi, perto de Merzouga, representam o Saara “clássico”. São as dunas mais altas e acessíveis, formando um mar de areia laranja que corresponde à imagem icônica que muitos têm do deserto. É uma experiência majestosa e visualmente deslumbrante.
Por outro lado, as Dunas de Erg Chigaga, acessíveis via M’hamid ou Zagora, oferecem o Saara “selvagem”. A jornada para chegar lá é mais longa, exigindo um robusto 4×4 para cruzar planícies áridas antes que as dunas apareçam no horizonte.
É uma experiência mais remota, rústica e de imersão total, para aqueles que buscam o isolamento e a sensação de estar no fim do mundo.
Merzouga: A Experiência Majestosa em Erg Chebbi

A pequena vila de Merzouga serve como base para explorar Erg Chebbi. É daqui que partem as caravanas de camelos para o coração das dunas.
A sensação de estar cercado por aquele mar de areia, cujas cores mudam do dourado ao vermelho-fogo com a luz do sol, é simplesmente inesquecível.
Zagora e M’hamid: A Rota para a Aventura em Erg Chigaga
O caminho para Chigaga é uma aventura em si. A rota segue o Vale do Draa, um oásis sinuoso, passando por Zagora, famosa pela placa “52 dias para Timbuktu”. M’hamid é a última cidade, o posto avançado antes do deserto profundo.
A jornada a partir dali é sobre vastidão e simplicidade, culminando no encontro com as dunas selvagens e intocadas de Chigaga.
Parte 3: As Paisagens Inesquecíveis no Caminho para o Deserto
A beleza da viagem ao Saara está tanto no caminho quanto no destino. As estradas que conectam Marrakech ao deserto são um espetáculo de diversidade geográfica e cultural.
A jornada começa ao atravessar o Alto Atlas pela passagem de Tizi n’Tichka, uma estrada sinuosa que sobe a mais de 2.260 metros, revelando vistas montanhosas de tirar o fôlego. Mais adiante, o Vale do Dadès e o Desfiladeiro de Todra impressionam com seus cânions monumentais e formações rochosas avermelhadas, onde vilarejos se aninham em oásis verdejantes.
Na primavera, o Vale das Rosas em Kelaat M’Gouna surpreende com a beleza e o perfume de milhares de rosas de Damasco, usadas para produzir a famosa água de rosas. Seguindo para o sul, o Vale do Draa acompanha o rio de mesmo nome, formando um dos maiores palmeirais do mundo, uma fita de vida que rasga a paisagem árida.
Perto de Ouarzazate, o Oásis de Fint é um segredo bem guardado, um refúgio de tranquilidade com jardins exuberantes e piscinas naturais que contrastam com o ambiente rochoso ao redor.
Parte 4: Experiências Essenciais Para Viver no Saara

O Saara é um lugar para sentir. As experiências aqui são rituais que conectam o viajante à essência do deserto.
O Ritual do Passeio de Camelo é a forma clássica de adentrar as dunas. A caravana lenta, balançando ao ritmo dos animais ao pôr do sol, não é apenas um transporte, mas uma meditação em movimento. A experiência culmina em uma noite sob as estrelas.
Dormir no deserto, longe de qualquer poluição luminosa, revela um céu de uma clareza assombrosa. Os acampamentos variam em estilo, desde o tradicional acampamento berbere, mais rústico e autêntico, até os acampamentos de luxo, que oferecem o conforto de banheiros privativos e camas macias sem sacrificar a magia do entorno.
A noite é preenchida pela cultura berbere: a hospitalidade calorosa, a música dos tambores ao redor da fogueira e o onipresente chá de menta, servido em um ritual de amizade. Acima de tudo, a experiência mais profunda é a de abraçar o silêncio e a imensidão.
É no vazio aparente do deserto que encontramos um espaço para a conexão interior, uma experiência introspectiva com a natureza em sua forma mais pura.
Parte 5: Guia Prático – Planejando Sua Viagem ao Deserto
Planejar uma viagem ao Saara requer atenção a alguns detalhes importantes para garantir uma experiência segura e confortável.
Perguntas Frequentes
De onde partir? As viagens geralmente começam em Marraquexe ou Fez. De Marraquexe, a viagem até Merzouga (Erg Chebbi) leva cerca de 9 a 10 horas de carro. De Fez, são aproximadamente 7 a 8 horas. É uma jornada longa, sempre feita com pernoite no caminho.
É possível fazer uma viagem de um dia? A resposta é um sonoro não. Tentar fazer um bate e volta de Marrakech é impraticável e desrespeita a escala e o ritmo do deserto. A viagem perderia todo o seu significado.
Quanto tempo ficar? Recomendamos fortemente passar no mínimo duas noites no deserto. Uma única noite mal permite chegar, ver o pôr do sol e partir na manhã seguinte. Duas noites oferecem uma imersão real, com tempo para explorar, relaxar e sentir verdadeiramente o lugar.
Qual a melhor época do ano para ir? A primavera (março a maio) e o outono (setembro a novembro) são ideais, com dias ensolarados e temperaturas agradáveis. O verão (junho a agosto) é extremamente quente, podendo passar dos 45°C. O inverno (dezembro a fevereiro) tem dias amenos, mas noites muito frias, exigindo roupas adequadas.
O que vestir e levar na mala? Pense em camadas. Leve roupas leves e respiráveis para o dia e agasalhos quentes para as noites frias. Um lenço ou turbante (shesh) é essencial para se proteger do sol e da areia. Não se esqueça de protetor solar, chapéu, óculos de sol e um bom hidratante. Para visitar vilarejos, opte por roupas mais conservadoras.
É uma viagem segura e recomendada para crianças? Sim, é uma viagem segura e uma aventura fantástica para crianças, que costumam adorar os camelos e as dunas. Basta escolher um roteiro com ritmo adequado e um acampamento confortável para a família.
Informações Úteis
Para visitar o Marrocos, brasileiros não precisam de visto para estadias de até 90 dias. Os idiomas oficiais são o árabe e o berbere, mas o francês é amplamente falado no setor de turismo. A moeda local é o Dirham Marroquino (MAD).
Parte 6: Sugestões de Roteiros (Estruturas de Viagem)
Roteiro Clássico (3 Dias / 2 Noites): Marraquexe ao Deserto de Merzouga
- Dia 1: Marraquexe → Alto Atlas → Aït Ben Haddou → Pernoite no Vale do Dadès.
- Dia 2: Vale do Dadès → Desfiladeiro de Todra → Merzouga (passeio de camelo e noite no deserto).
- Dia 3: Merzouga → Retorno via Ouarzazate → Chegada a Marrakech no final do dia.
Roteiro Estendido (4 Dias / 3 Noites): Uma Imersão Mais Profunda
Este roteiro segue a mesma base do clássico, mas adiciona uma noite, permitindo mais tempo para explorar os vales com calma, visitar um oásis ou passar um dia inteiro de atividades no deserto, aprofundando a conexão com o lugar.
A Grande Travessia (3 ou 4 Dias): Conectando Marraquexe e Fez via Deserto
- Dia 1: Marraquexe → Aït Ben Haddou → Ouarzazate/Dadès.
- Dia 2: Rota dos Kasbahs → Merzouga (noite no deserto).
- Dia 3: Merzouga → Vale do Ziz → Midelt → Fez.
Conclusão: A Essência da Jornada
Uma viagem ao Saara é uma jornada de autoconhecimento e conexão. É a prova de que o deserto não é um lugar para ser visto, mas para ser sentido. É o vento que sopra histórias, o silêncio que acalma a mente e o tapete de estrelas que nos lembra da nossa pequenez e, ao mesmo tempo, da nossa conexão com o universo.
Prontos para ouvir o chamado do deserto? Entre em contato para desenharmos juntos uma consultoria de viagem que revele o Marrocos que pulsa além dos roteiros convencionais.

